Olá gente, hoje vamos falar sobre uma verminose muito importante em gatos, a platinossomíase. Se o nome é feio, imagine a doença, não é nada, nada bom. Essa verminose é um pouco diferente daquelas que estamos acostumados, e que prevenimos com vermífugos. Ela é causada pelo parasita trematódeo Platynosomum concinnum e a prevenção desta verminose é muito mais complexa, pois está diretamente relacionada com o hábito de caça do gatinho.

Mas vamos falar um pouco sobre esse parasita para podermos entender a sua importância clínica e epidemiológica. Segundo o quadro abaixo, a sua distribuição geográfica é quase que total nas Américas e observe que a América do Sul está toda pintadinha.

Foto: Distribuição geográfica da planitossomíase. Extraída do livro: Feline Clinical Parasitology

Esses parasitas, quando infectam os gatos, vão se localizar na vesícula e ductos biliares, o que pode levar a um caso grave de obstrução dessas vias, com lesões no fígado, consequentemente. Em infecções iniciais, o gato pode apresentar episódios ocasionais de depressão, diarreia e falta de apetite. Ao exame físico observa-se perda de peso, icterícia (coloração amarelada) leve nas mucosas e aumento discreto do fígado. Em infecções graves e complicadas, são observadas diarreia e perda de peso marcante, com icterícia mais evidente (em mucosas e pele).

Foto: Mucosa ictérica do felino acometido com platinossomíasse. Extraído do artigo Diagnóstico de Platinossomíase em felinos atendidos no Hospital de Clínicas Veterinárias (HCV) da UFRGS. Fonte: Professora Fernanda Amorim
O diagnóstico vai combinar o histórico, sinais observados no exame físico, ultrassonografia do fígado e vesícula biliar com observação dos ductos biliares dilatados e aumento do fígado, citologia e exame histopatológico (biópsia) da bile e/ou fígado, e a observação de ovos nas fezes. Entretanto a não observação de ovos nas fezes não descarta a infecção. É muito importante o clínico informar a suspeita para o laboratório, pois há técnicas diferentes no exame de fezes que facilitam a visualização de certos ovos, e os do Platynosomum concinnum, é um caso desses.

O tratamento vai envolver uso de antiparasitários específicos. Na nossa prática clínica, nós gostamos de pesquisar relatos de casos recentes das verminoses para comparar os resultados dos protocolos utilizados, bem como a literatura específica. 

Agora, a parte mais importante eu deixei para o final, que é: como o meu gatinho vai se contaminar com esse parasita?

Para entender a forma de transmissão eu vou falar sobre o ciclo de vida dele. O gato infectado vai eliminar os ovos embrionados do parasita no ambiente. Estes são consumidos por um caramujo, que após algum tempo vai depositar no solo os esporocistos. Os esporocistos são consumidos por algum isópode terrestre, que vai posteriormente ser caça de um lagarto, lagartixa, sapo ou rã. Após algumas semanas o parasita já sofreu outra transformação no último hospedeiro, e este será então a caça do gato. 

Foto: Ciclo do Platynosomum concinnun. Extraída do artigo Uso do Endal® gatos no tratamento da platinossomíase felina.
Fonte: Mariana Sampaio Anares da Silva
Devido aos sinais tão inespecíficos de verminose, aonde o diagnóstico pode ser confundido com várias outras doenças hepatobiliares, e ao difícil diagnóstico, a melhor forma de prevenção ainda é evitar o hábito de caça do animal. 

Mesmo que se ache tão complexo esse ciclo de vida, e tantos passos que o parasita precisa passar para poder infectar um gato, é importante saber que a platinossomíase é muito mais comum e subdiganosticada do que se imagina. 

Portanto se o seu gatinho tem o hábito de caça a lagartos, lagartixa (jacarezinho para o pessoal do sul), sapo ou rã, existe a possibilidade de infecção. É importante tentar evitar que o animal tenha acesso a essas caças. Deve-se impedir que o gato saia para a caça e em ação conjunta pode-se enriquecer o ambiente deste, colocando brinquedos de caça, escondendo o alimento, etc.

É isso aí gente, fiquem atentos para qualquer mudança de comportamento do seu bichano, e procure o veterinário sempre que precisar.

Até mês que vem.

Dra. Alice Ribeiro de Oliveira Lima

Literatura consultada:
Diagnóstico de plationossomíase em felinos atendidos no Hospital de Clínicas Veterinárias (HCV) da UFRGS. SILVEIRA, E., ELESBÃO, B.S.; MARQUES, S.T.; COSTA, F.V.A. Disponível em 07/05/2015 em https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/98717/Ensino2013_Poster_33059.pdf?sequence=2
Feline Clinical Parasitology. BOWMAN, D.; HENDRIX, C.M.; LINDSAY, D.S.; BARR, S.C. 2ª Ed. Yowa State University Press, 2002, 469p. 
Uso do Endal® gatos no tratamento da platinossomíase felina. M. S. ZANUTTO, M. A. O. ALMEIDA, A. B. JUNQUILHO3, M. S. A. SILVA, R. X. SILVEIRA, P. L. FATAL. Disponível em 07/08/2015 em http://www.msd-saude-animal.com.br/binaries/a-efic-cia-do-endal-gatos_tcm81-55202.pdf. 




Bom dia gente, hoje eu estou aqui para falar um pouquinho sobre algo que é de conhecimento geral dos donos de pets e das mamães por aí, a verminose.

Chamamos assim a doença causada por parasitas, na grande maioria intestinais, e que possuem os mais diferentes ciclos de vida e meios de transmissão. Sabendo disso, o clínico veterinário deve estar atento tanto à prevenção quanto ao tratamento dessa afecção, lembrando que muitos agentes podem levar a condições sérias, como diarreia, vômito, anorexia, desidratação, anemia, perda de peso e até à morte.


Foto: imagem retirada do livro The Cat: Clinical Medicine and Management (2012)
Geralmente quando um filhote é trazido para a consulta pediátrica, e até para a primeira vacina, é perguntado se este foi vermifugado, isto é, se recebeu algum medicamento de ação vermicida (ou endoparasiticita) de forma preventiva. Mesmo que o filhote viva em um ambiente limpo, de baixo desafio (com baixa possibilidade de infecção), a infecção por vermes pode acontecer durante a gestação e a lactação, sem contar a reinfecção após o tratamento preventivo com endoparasiticida. O ideal é a realização de um exame de fezes nessa ocasião para a pesquisa de vermes intestinais, redondos e chatos, e pesquisa de protozoários. Mesmo que alguns deles só infectem filhotes a partir de certa idade (como os vermes chatos) muitas vezes os filhotes levados à clínica são adotados sem registro da data de nascimento.

Infelizmente a auto-medicação praticada pelos tutores se estende aos seus felinos e estes vão administrar o endoparasiticida que lhe convier, na dose e frequência de bula. Porém é importante ressaltar que esta prática é muito perigosa, afinal de contas para cada parasita identificado no exame de fezes (parasitológico de fezes), há um tratamento e um protocolo diferente, que vai variar de acordo com sua frequência na região e com a prática do clínico.

Geralmente o veterinário solicita que sejam coletadas três amostras de fezes dia sim dia não, ou três dias seguidos. Estas podem ser levadas frescas, no dia da coleta, para o laboratório, ou serem armazenadas no mesmo frasco contendo um conservante, como formol, e refrigeradas de 2ºC a 8°C.

O princípio de se coletar em dias diferentes se dá pelo fato de que alguns parasitas não liberarem ovos ou oocistos de forma regular, aumentando assim o valor diagnóstico desta forma. É importante o clínico saber qual a suspeita, pois existem verminoses que não liberam ovos nas fezes, e para fechar o diagnóstico é importante avaliar o vômito do gato doente, por exemplo (O. tricuspis), ou partir para outro meio diagnóstico.

Diversos clínicos têm sua predileção por esta ou aquela base farmacêutica para a prevenção ou tratamento dessas parasitoses, entretanto é comum vermos os colegas alterarem a medicação periodicamente, o que chamamos de alternância de base, pois desta forma estamos ampliando o raio de ação da conduta preventiva. 

As melhores formas de prevenir, além do uso de endoparasiticidas, são:
  • Manter o ambiente limpo, principalmente para as ninhadas;
  • Não permitir que os gatos façam passeios, podendo assim ter acesso principalmente à parques e praças;
  • Não permitir a caça ou consumo de caramujo, calango ou lagartixa, pois estes são hospedeiros (definitivo e intermediários, respectivamente) de uma verminose séria, causada pelo Platynossomum spp. A caça e consumo de pequenos roedores também podem levar à infecção por Taenia taeniformis, se estes estiverem infectados, bem como a Toxoplasmose, que pode também ser transmitida por aves e carnes cruas ou mal passadas contendo o cisto infectado.
  • Prevenir a infestação por pulgas, pois além de ser um ectoparasita que causa desconforto, coceira, feridas, etc, ele ainda pode ser hospedeiro de uma verminose importante, o Dipylidium caninum.

E a forma mais importante de prevenção ainda é o exame físico regular nas visitas ao veterinário. 

Este pode avaliar o peso, cuidados com a higiene pessoal do gato e aspecto geral, dentre outros aspectos que vão alertar para uma possível infecção por parasitas. Vale lembrar que algumas delas são zoonoses, isto quer dizer, podem ser transmitidas para os humanos, portanto vamos nos cuidar.

É isso aí, em outras postagens falarei sobre as verminoses mais importantes, vamos cuidar dos nossos bichanos para estarem sempre saudáveis, vítimas de muitos beijos e apertos.

Foto: Giane Portal / Fofuras Felinas

Até a próxima.

Dra. Alice Ribeiro de Oliveira Lima





Em março foi comemorado o Mês da Mulher e, pra fechá-lo com chave de ouro, nós não podemos deixar também de homenagear aquela que encanta e traz doçura ao mundo dos felinos domésticos, a GATA. Portanto, na coluna Dia de Veterinária de hoje, será abordado um pouco sobre o comportamento feminino dos felinos.

Foto: Giane Portal / Fofuras Felinas

Comportamento Sexual Feminino:

Ah, o cio da gata. Já atendi muitas gatas no cio “a beira da morte”. Não vou mentir que foram as consultas mais fáceis que eu fiz. Daquelas que o tutor chega apavorado, com a gata enrolada em um pano, dizendo:

- Doutora, pelo amor de Deus, salva a Mimi, ela está tendo um ataque de dor, e é nas costas. Ela está andando atrás de mim, grita, se contorce toda, se joga no chão, e levanta o rabo, gritando o tempo todo, começou do nada, eu não sei o que fazer.


Então, vamos lá:

Como muitas outras espécies domésticas, o comportamento da gata no cio se distingue do seu comportamento normal, incluindo uma atividade alterada e nervosismo. Ela muda completamente, na sua urina ela também passa a eliminar ferormônios, isto somado aos gritos (vocalização), atrai os gatos machos inteiros das redondezas. Sentindo a presença do macho (ou não) ela então passa a elevar os membros posteriores, deslocar a cauda para o lado, como se estivesse na posição para receber o macho.


DICAS:


  • Castre sua gatinha antes dos 6 meses, a castração feita até 2,5 anos reduz para quase  ZERO as chances do desenvolvimento de tumor de mama, caso ela seja pré-disposta. Tumores de mama em gatas são 80% malignos, em cadelas são 50%.



  • A gata ovula após a cópula, portanto se ela entrou no cio e você quer que ela saia para acabar com esse comportamento e então ela seja logo depois castrada, basta simular uma cópula, umedeça um cotonete e introduza levemente na vulva da gata, gire em sentido horário e anti-horário, como se ela estivesse sendo penetrada pelo macho por cerca de um minuto, com cuidado, isso deve bastar. Logo depois ela irá lamber a vulva, o que ativa o sistema neuroendócrino e a ovulação.



Comportamento Maternal:

A habilidade materna é aquele comportamento executado pela mãe desde antes do parto até o desmame. As gatas domésticas geralmente cuidam dos seus filhotes sem qualquer ajuda dos humanos, algumas só revelam os rebentos após três a quatro semanas de idade, entretanto é mais comum que elas deixem que a família acompanhe o parto e a criação de perto.

Quando o parto está se aproximando a gata vai procurar um local escuro e protegido para ter os bebês, se for apegada à família é possível que seja no armário ou na cama do dono. Esta também vai passar mais tempo deitada, lambendo a genitália e mamas, podendo ficar mais irritada. Uma vez escolhido o lugar, é importante que a família mantenha este limpo, com pedaços de pano ou papel.

Durante o parto normal a gata tem a contração. O filhote começa a nascer, então a mãe vai puxando com os dentes as membranas fetais. Depois que o feto nasce, a placenta será expelida. A mãe vai cortar o cordão umbilical com os dentes, lamber o filhote vigorosamente para limpá-lo e estimular os movimentos respiratórios, comer a placenta e limpar a área do líquido amniótico para aguardar a próxima contração.

A gata fica junto da sua ninhada nos primeiros dias após o parto e vai ficando menos à medida que o tempo passa. Quando a ninhada é grande, ela fica cerca de 70% do tempo. A mãe tende a lamber bastante o filhote nas primeiras 2 a 4 semanas de vida, principalmente na região anogenital, pois nessa fase de vida o filhote só defeca e urina com o estímulo de lambedura da mãe. A gata carrega os gatinhos pela nuca quando quer mudar de lugar ou quando resgata os perdidos. Geralmente não os perde de vista, porém quando isso acontece, ela os recupera quando estes começam a miar. A gata se vê forçada a mudar de lugar quando o local que está se torna muito estressante (como com a presença de outros gatos, muitos humanos, barulho, cães) e, quando ela muda várias vezes de local, a pele no pescoço dos gatinhos pode ficar machucada, desenvolver infecções, e até levar ao canibalismo por parte da mãe.


É muito comum as gatas aceitarem filhotes de outras ninhadas entre os seus, mesmo que sejam de idades diferentes. Os filhotes geralmente começam a mamar 1 a 2 horas após o nascimento, são atraídos para as mamas pelo calor da mãe e não têm dificuldade em encontrá-las. Nessa fase, a mãe lambe a própria mama e os filhotes também são atraídos pela saliva da mãe. A segunda fase da amamentação se dá quando eles abrem os olhos, que é quando eles passam a enxergar. A terceira fase, lá pela quinta semana, a mãe está menos disponível para a ninhada e passa a desmamá-los.

Ninguém nunca ensinou essas gatinhas o que fazer, quando fazer e não sai dali nenhum gato ‘mimado’ por elas, daquele que a gente fala “a culpa é da mãe”... Vamos aprender com as gatas e confiar mais nos nossos instintos, fica esse conselho da natureza para todas as mulheres. Porque nós, mulheres, somos incríveis.


Que todas as Mulheres tenham um ano todo repleto de realizações!

Fonte das fotos: Arquivo pessoal Dra Alice Ribeiro de Oliveira Lima

Literatura consultada: Pedersen, N. C. Feline Husbandry. 1991



9 de fev. de 2015

CATNIP | Dia de Veterinária



Os efeitos da Erva do Gato: Catnip, Catnip, Catnip


Foto extraída do livro: O Paciente Felino – 4ª Edição e
gentilmente cedida por Marco Nicovich, Mississippi
State Office of Agricultural Communicatios
O que é isso que deixa nossos bichanos tão vidrados e apaixonados chamado ERVA DO GATO?

A Erva do Gato, ou Catnip, como é conhecida internacionalmente, é uma planta que possui propriedades que levam o gato a ter comportamentos relacionados com prazer e bem estar.  Esta também apresenta estes efeitos em grandes felinos, sendo amplamente utilizada como enriquecimento ambiental em zoológicos.

A erva do gato (Nepeta cataria) é nativa da África e do Mediterrâneo, porém, é encontrada no mundo inteiro.  Os compostos ativos da erva não são tóxicos para os gatos, são encontrados nas folhas e caules e são óleos essenciais e outros constituintes ativos (nepetalactone e ácido nepetálico).

AGORA PASMEM: Os efeitos da catnip nos nossos bichanos não são muito claros, entretanto, pessoas que fumaram a erva... RAM RAM, isso mesmo, principalmente na década de 60, como coadjuvante de outra erva também muito conhecida pelos seus efeitos alucinógenos, relataram que a catnip as deixaram felizes, contentes e intoxicadas. Portanto especula-se que os efeitos nos gatos sejam alucinógenos visuais e auditórios.

A erva do gato é vendida desidratada ou fresca, porém a concentração de nepetalactone na forma desidratada é muito maior. Alguns proprietários plantam a erva em casa, utilizam a forma desidratada em brinquedos, arranhadores, para enriquecimento ambiental ou os próprios brinquedos já são vendidos com a erva dentro deles.

A reação à erva é muito individual, depende de genética e idade. Alguns gatos que não herdaram o gene simplesmente não reagem à ela em nenhuma fase da vida. Gatos com menos de dois meses não costumam reagir também, e geralmente eles reagem de alguma forma a partir dos seis meses, quando estão entrando na puberdade.

Quando o gato entra em contato com a planta fresca, geralmente começa cheirando a folha e esfregando a face. Quando entra em contato com a erva desidratada ele pode se esfregar nela, vocalizar, salivar, balançar a cabeça, pular e até demonstrar comportamento de cio. Essa excitação geralmente dura alguns minutos. A erva do gato não deve ser oferecida mais de duas vezes na semana.

Na minha prática, eu recomendo o uso da erva do gato em alguns casos de adaptação com novos móveis, principalmente grandes arranhadores ou caminhas, para enriquecimento ambiental, sendo usada com a frequência de até duas vezes na semana, e sob a supervisão do tutor. Alguns animais podem ter uma reação de excitação extrema e o seu uso ser mais prejudicial do que benéfico.

Bom, espero que esse breve relato tenha elucidado algumas dúvidas, e vale lembrar que o veterinário sempre deve ser consultado em caso de qualquer problema comportamental que não esteja sendo responsivo ao enriquecimento ambiental, à mudança de manejo ou uso de catnip.

Até breve gente!


Alice Ribeiro
diarioveterinaria.blogspot.com
twitter: @alicevet

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Consulta: O Paciente Felino – 4ª Edição 




Mães e pais dos felinos mais amados do mundo, hoje o papo é sério. BOLAS DE PELO. Eu não estou falando daquela bola de pelo que você cria na sua casa, que mia desesperadamente a cada momento que você passa perto da geladeira ou corre para todos os cantos durante a madrugada, mas daquela que se forma do trato gastrointestinal do gato devido à grande quantidade de pelos deglutidos.

Então, vamos começar! Em primeiro lugar, apesar de o gato emitir sons semelhantes à tosse, e de fato às vezes tossir mesmo, antes de eliminar a bola de pelo, esta não fica nos pulmões ou traqueia, e sim no trato gastrointestinal do animal.

E quais são as causas da formação de bola de pelo?

Bom, basicamente, a bola de pelo se forma porque os pelos são deglutidos e não são digeridos, devendo ser eliminados regularmente nas fezes. Porém vários fatores podem levar à formação da bola de pelo e geralmente estão ligados ao aumento da prática de lambedura da pelagem do felino, aumento da quantidade de pelos deglutidos, alterações na estrutura ou mobilidade gastrointestinal. Algumas causas são:
  • ESTRESSE:

Quando o gato está em um ambiente de estresse ele pode adoecer e deixar de se lamber, isso acontece comumente e é uma queixa trazida ao veterinário, a falta de cuidado próprio, entretanto se o estresse ambiental levar à ansiedade, o animal vai aumentar a frequência e intensidade da lambedura do pelame.

  • DOENÇA DE PELE E PELO:

A presença de lesões de pele e/ou parasitas que causem prurido (coceira) tais como pulgas e ácaros, vai levar ao aumento do comportamento de lambedura.

  • USO DE PERFUMES:

Alguns animais não toleram o uso de perfumes, e aumentam a lambedura depois que recebem esse cheiro. O mesmo vale quando o proprietário abraça e felino usando um perfume muito forte. Não podemos nos esquecer de que os gatos transferem odores para os seres humanos no objetivo de reconhecê-los como amigos, portanto o olfato é muito importante no comportamento felino, que usa 30% do cérebro nesse sentido (nós usamos 3%, faz as contas). O ideal é não usar nada ou, se usar, que seja próprio para a espécie.

  • PELAME EMBARAÇADO:

Os gatos de pelo longo perdem pelo tal como os de pelo curto. A diferença é que nos animais de pelo curto o pelo cresce e cai, aparecendo mais na varredura do chão da casa no dia a dia, enquanto que os de pelo longo, o pelo cresce, cresce, cresce, mas também cai. Aqueles animais com pelo longo e embaraçado não vão perder esse pelo, ficando preso nos nós, fazendo com que durante a lambedura o animal acabe deglutindo mais pelo do que deglutiria se este pelo tivesse caído.

  • ALTERAÇÕES GASTROINTESTINAIS DE ESTRUTURA OU MOTILIDADE:

Essas alterações devem ser diagnosticadas pelo veterinário e incluem: desordens de motilidade primárias, doenças inflamatórias ou neoplásicas do trato gastrointestinal, divertículo ou hérnia de hiato.

Muitos guardiões só sabem que o gato está com bola de pelo depois que as encontram pela casa, ou veem o gato vomitando. O animal vomita um bolo de pelo, geralmente em formato cilíndrico, e a frequência vai depender da gravidade do caso.

Como a formação de bola de pelo pode causar vários transtornos gastrointestinais, os sintomas vão variar. Esses transtornos são:

ESOFAGITE
GASTRITE
OBSTRUÇÃO GASTROINTESTINAL POR CORPO ESTRANHO
CONSTIPAÇÃO

O animal pode apresentar:

- Dificuldade em defecar, com presença de pelos nas fezes.
- Pelame seco ou embaraçado.
- Tosse seca e frequente, principalmente depois das refeições.
- Perda de interesse em se alimentar.
- Letargia.
- Consumo de grama e plantas.
- Vômitos profusos de início súbito (obstrução por corpo estranho).

Fonte: O Paciente Felino -  4ª Edição
O tratamento vai depender da causa e das consequências da bola de pelo, podendo ser a simples troca de alimentação como a realização de cirurgia emergencial.

A melhor forma de prevenir a formação de bola de pelo no gato saudável ainda é a escovação. O pelo do gato deve ser escovado diariamente. A maior reclamação que eu ouço é que o gato não gosta de ser escovado, mas a maioria dos gatos que não gostam de ser escovados também está com muitos nós nos pelos. Eu sempre recomendo a tosa, seguida do início da escovação. A escovação deve ser feita no momento de interação entre o guardião e o gato, este deve procurar no mercado o tipo de escova mais eficiente, que retire os pelos e não estresse o gato. Esse momento deve ser prazeroso e pode ser seguido de reforço positivo, como o oferecimento de petiscos ou alimento saboroso.

Outra forma de prevenção é o uso de rações de categoria super premium. Essas rações possuem na sua formulação a adição de fibras que facilitam o trânsito gastrointestinal e, desta forma, também evitam a formação da bola de pelo. 

As causas de aumento da lambedura devem ser tratadas, como a presença de parasitas, situações de estresse, etc. Entretanto, animais saudáveis, com comportamento normal de lambedura, podem apresentar regurgitação ou vômito da bola de pelo como um fenômeno natural ou como indicador de um problema gastrointestinal, portanto, em TODAS as situações de bola de pelo, o veterinário deve ser consultado para que possa identificar estas causas.
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Portanto, gente, a bola de pelo não é só nojenta, mas preocupante a muitos níveis, devendo ser prevenida e tratada, visando sempre à qualidade de vida dos nossos bichanos.

Já que estamos retomando as nossas publicações sobre os cuidados com os felinos, vamos voltar com tudo! Preparem-se para a cobertura da 13ª Edição da Pet South America, que acontecerá de 28 a 30 de Outubro na cidade de São Paulo, confira no site: http://www.petsa.com.br/
See ya!!



Fonte consultada:
NORSWORTHY, G. D.; GRACE, S.; CRYSTAL, M. A. The Feline Patient, 4ª ed., Wiley-Blackwell, 2011, 1052 p.
http://cats.about.com/cs/catmanagement101/a/hairballs.htm






foto: giane portal / fofurasfelinas
Nas clínicas veterinárias de todo o Brasil nós nos deparamos com uma situação muito comum, o abandono de animais. Este abandono se dá por vários motivos, tais como: mudança de casa, problemas comportamentais, doenças de fundo alérgico e principalmente, a gestação de alguém na família. Infelizmente o abandono (que inclui doação do animal) pelo motivo da gestação acaba sendo diversas vezes indicado pelos próprios médicos. Tanto ao médico quanto ao veterinário cabe apenas o esclarecimento quanto às doenças transmissíveis, aos riscos da gestante e aos problemas comportamentais possíveis oriundos da chegada de outro membro da família.

Então vamos começar com o maior medo das gestantes donas dos gatos: Meu gato vai me transmitir toxoplasmose ou não?

Primeiro é necessário conhecer a Toxoplasmose:

A toxoplasmose é uma doença parasitária com alta prevalência que acomete animais de sangue quente e é causada pelo protozoário Toxoplasma gondii. Os felinos são hospedeiros definitivos, isto é, neles o parasita completa o seu ciclo e é liberado no ambiente por meio de oocistos resistentes nas fezes. Esses oocistos precisam estar em contato com o oxigênio para poderem se tornar infectantes, o que só acontece de um a cinco dias em que eles estão no ambiente. Durante a fase aguda da doença, formas deste parasita chamadas de taquizoítas estão em replicação no sangue e linfa, causando os sintoma. Quando a imunidade do hospedeiro atenua a replicação taquizoíta, esses parasitas podem então tomar a forma bradizoíta,  que possui replicação lenta, e se instalam em tecidos extra-intestinais (sistema nervoso central, músculos e órgãos viscerais), podendo persistir por toda a vida do hospedeiro.

foto: giane portal / fofurasfelinas

Modo de transmissão:

A infecção pode ser dar a partir da ingestão de qualquer uma das formas do parasita e por via transplacentária. Como os gatos habitualmente não têm o comportamento coprofágico (alimentar-se de fezes) estes geralmente se infectam com a ingestão de uma presa infectada (ou a carne crua ou mal passada infectada).

 Acredita-se que 30 a 40 % de gatos e pessoas nos Estados Unidos estão possuem anticorpos contra a toxoplasmose, isto é, em algum momento em suas vidas eles entraram em contato com a doença e possivelmente estão infectados.  Já no Brasil essa prevalência pode passar de 70%.

Aspectos de zoonose:

A toxoplasmose é uma zoonose importante tanto pela alta prevalência quanto pelas conseqüências. Os acometimentos mais sérios ocorrem em pessoas com baixa imunidade, por exemplo: as portadoras de HIV, as que passam por quimioterapia, as transplantadas, as crianças e os idosos. Quando ocorre a infecção em mulheres gestantes, o feto pode apresentar a doença com manifestações neurológicas, oculares, e até virem a nascer mortos. As pessoas imunocompetentes não gestantes geralmente são assintomáticas. Aproximadamente 10-20% acometidas das pessoas podem apresentar linfadenopatia (inflamação dos linfonodos), febre, dor de garganta, dores musculares, mal estar. Os sintomas geralmente se resolvem sem tratamento. Aqueles mais severos como inflamações nos músculos, pneumonia, sinais neurológicos são possíveis, porém raros. A toxoplasmose ocular com uveíte, geralmente unilateral, pode ser vista em adolescentes. Essa síndrome está freqüentemente associada a uma infecção assintomática congênita (durante a gestação) ou como resultado de uma infecção ocorrida logo após o nascimento.

foto: giane portal / fofurasfelinas
As pessoas adquirem a toxoplasmose pela ingestão de oocistos infectantes (aqueles que já estão no ambiente mais de 24 horas), por via transplacentária (quando a mãe tem uma infecção aguda durante a gestação) e ingerindo cistos em tecidos.

Para prevenir essa infecção a pessoa deve:

- Evitar o consumo de carne mal passada ou crua, esta deve se cozida a uma temperatura de 63 a 71°C. Os utensílios da cozinha devem ser lavados com água quente e sabão após o trato de carnes cruas.

- Lavar bem as verduras e frutas antes de comer. Os gatos têm o hábito de enterrar suas fezes e o cisto pode viver muito tempo no ambiente. Se há gatos vivendo na área da horta, essa contaminação pode acontecer.

- As fezes dos gatos devem ser manuseadas com muito cuidado, lembrando de utilizar o material necessário para se evitar a contaminação como pá e luvas. As mãos devem ser lavadas sempre que a caixa de areia for limpa ou que se fizer qualquer serviço de jardinagem. Como os oocistos levam ao menos 24 horas para se tornarem infectantes, as caixas de areia devem ser limpas diariamente.

 - Uma das formas de prevenção mais importantes é a alimentação de gatos apenas com comidas comerciais e para aos adeptos à alimentação natural, com carnes preparadas na temperatura de 63 a 71°C.

Seguem algumas verdades do papel do gato na toxoplasmose:


foto: giane portal / fofurasfelinas
Os gatos de apartamento e aqueles que não saem de casa não são as maiores preocupações dos controles de zoonoses. Aqueles gatos que caçam na rua e gatos de fazenda são os responsáveis pela contaminação e manutenção dos parasitas no ambiente, com conseqüente infecção de pequenos roedores (gatos de ruas) e de carne de consumo humano (nas fazendas).

Gatos geralmente eliminam o oocisto por dias a algumas semanas após a infecção primária, e não por toda a vida. O fato de ser hospedeiro definitivo não implica na contaminação constante do ambiente, mas sim que ele é o único a fazer essa contaminação quando estiver na fase aguda da doença, quando se reinfestar ou quando, devido à baixa de imunidade, ocorrer a ativação das formas “dormentes”.

Gatos são muito asseados e geralmente não permitem que fiquem fezes no seu pelo (um estudo demonstrou que nenhum oocisto foi isolado do pelo de gatos que há sete dias eliminavam milhões de oocistos pelas fezes).

Portanto, amigos gateiros, para não contrair a doença a pessoa deve entender sobre ela e perceber que os riscos vão muito além do simples convívio com o hospedeiro definitivo.

Alice Ribeiro
diarioveterinaria.blogspot.com
www.formspring.me/alicevet
twitter: @alicevet


Literatura Consultada:
Toxoplasmosis – information sheet of The Center of Food Security and Public Health – Iowa State University
Lappin, M.. Feline Toxoplasmosis  - Latin America Veterinary Conference, 2012




Não é de se estranhar que o veterinário de gatos esteja sempre descabelado (ou na maioria das vezes). Nesse momento eu estou no aeroporto Luís Eduardo Magalhães, em Salvador, rumo a São Paulo, às 3h30, para aproveitar mais uma edição da Pet South America. Já tentei conexão com a internet para fazer meu check in no Foursquare, mas eu tenho mesmo é que me acostumar que, sendo da geração de 1980, pouco ainda me habituei à tecnologia, então é papel e lápis mesmo.


Dormi às 2h00, acordei às 2h30 e não culpo a vida boêmia que todo veterinário gostaria de ter, mas sim a ansiedade por receber uma injeção de cidade grande, conhecimento e novidades.

Tal como o Tudo Gato mostrou as principais novidades da Pet South America em 2011, neste ano não será diferente. Mais uma vez a NürnbergMesse Brasil traz para os veterinários e lojistas a maior feira Pet do Brasil. Esta acontece no Expo Center Norte, próximo à estação Tietê. A mesma estrutura e organização que foram vistas nos outros anos estão também presentes em 2012, como traslado da estação e do Novotel para a feira, todos os dias, das 07h às 22h.

Foto: NuernbergMesse

Juntamente com a 11ª Pet South América, também acontece o Congresso Paulista de Especialidades. Neste congresso contaremos com os maiores veterinários do Brasil, no que diz respeito a essa medicina que tanto assusta, intriga e atrai, que é a felina.

Caros amigos, não se enganem que esta veterinária aqui não é tão ávida por saber, mas só o fato de estar cercada por tantos profissionais que, de uma forma ou de outra, batalham como eu, se matam o ano inteiro e ainda assim estão ali, abdicando de uma semana recheada de atendimentos e retorno financeiro (acredite, a grande maioria de nós só recebe se trabalhar), para estar ali se reciclando e se reencontrando, empolga qualquer um.

Ainda assim eu me pergunto porque estou tão ansiosa hoje, ontem e semana passada. Provavelmente porque é o momento que saio do consultório para me apaixonar por cada novo tratamento, produto ou acessório que faz não só o mercado, mas a paixão felina movimentar.

Portanto eu desejo a mim, ao Tudo Gato, ao colega profissional e lojista uma excelente Pet South América e Congresso Paulista de Especialidades, e prometo aos prezados leitores uma cobertura abrangente, que só o gateiro deste blog merece.

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Alice Ribeiro
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Corpo estranho linear


Todas as vezes que passamos 3 minutos com filhotes de gatos, nos pegamos brincando com os dedos, fios, novelos, e tudo mais que pode ser uma “presa” em potencial para o pequeno felino. Os filhotes de gatos são simplesmente fissurados em fios, eles se preparam, esperam seu alvo parar de se mover e atacam.

foto: giane portal / fofurasfelinas

Acontece que filhote de gato, como filhote de qualquer outra espécie, coloca tudo na boca e, acidentalmente, pode ingerir os brinquedos. Os brinquedos que os gatos ingerem com maior frequência são os lineares (linhas, fios, fio dental, agulhas), o que se dá o nome de CORPO ESTRANHO LINEAR. Os gatos raramente ingerem outros corpos estranhos pela seletividade dos alimentos inerente à espécie.

Apesar do exemplo citado ser em filhotes, essa patologia pode ocorrer em gatos de qualquer idade e não há predisposição racial ou de sexo, isso quer dizer, seja raça pura ou mestiça, macho ou fêmea, nenhum gato resiste a um fio se mexendo.

Quando o gato acaba engolindo o fio, este pode se fixar no caminho e causar uma obstrução no trato gastrintestinal (TGI). O corpo estranho pode estar obstruindo desde a cavidade oral até a porção final do intestino. Os sintomas mais comuns são falta de apetite, dificuldade de deglutição, vômito, regurgitação, inquietação e apatia.

foto: giane portal / fofurasfelinas
Na consulta é importante dar todas as informações importantes como o histórico alimentar, de vermifugação, de outras doenças, dos hábitos de brincadeira e dos materiais disponíveis pela casa que o animal teria acesso, a evolução da doença atual, quando começou, como começou, quais eram os sintomas, etc. O veterinário vai examinar o animal minuciosamente, avaliando a cavidade oral (um local muito comum de fixação do corpo estranho), fará a palpação e, muitas vezes, terá que lançar mão de exames de imagem, que incluem ultrassonografia, radiografia simples e/ou contrastada e endoscopia.

Corpos estranhos lineares em gatos são considerados emergências gastrintestinais, pois além da obstrução também haverá inflamação local, supercrescimento bacteriano na porção anterior à obstrução e há a possibilidade de perfuração do TGI com inflamação da cavidade abdominal.

Quando o corpo estranho ficou preso na base da língua, o clínico pode optar por cortar e fazer o acompanhamento clínico e de exames de imagem da saída deste corpo estranho, entretanto essa conduta é perigosa. Não se deve tentar puxar a extremidade livre na boca ou no ânus para não lesionar o TGI.

A intervenção cirúrgica se faz necessária em 90% dos casos, sendo realizada no esôfago, estômago ou intestino, a depender da localização do corpo estranho. A depender da gravidade das lesões pode ser necessária a realização de mais de uma cirurgia.  Os cuidados pós-operatórios vão envolver uso de antibiótico, dieta especial, suplementação, repouso e muitos agradecimentos a São Francisco de Assis pela recuperação do gatinho (ou outro santo que o seu gato seja devoto).

Portanto gente, não adianta, os gatos sempre serão como são, cabe a nós levarmos ao veterinário ao primeiro sinal de doença, contar toda a história necessária e optar por comprar brinquedos próprios para gatos, e seguros.

Até mais pessoal!


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26 de jul. de 2012

Saculite | Dia de Veterinária


foto: giane portal / fofurasfelinas
Existem muitas coisas que os gatos odeiam e uma das principais é ficar doentes. Nas consultas eles são manipulados, apertados, puxados, furados e, ainda por cima, às vezes saem humilhados parecendo um abajur pelo uso do colar elisabetano. Foi me lembrando da cara de mau humor de uma das minhas pacientes, a Priska, que eu escolhi o tema para esse artigo de hoje, e ele se chama: Impactação e Abscedação do saco anal.


A Priska já não gostava das visitas à clínica, mas eram toleráveis. Sua súdita (como costumo chamar os proprietários de gatos) é bastante dedicada e qualquer mudança de comportamento ela levava a gatinha para nossa atenção.


A Priska estava agindo estranho, se lambendo muito na região da base da cauda, tanto que a pelagem nessa área já estava mais rarefeita. Durante o exame físico eu percebi que ela também protegia a cauda, se virando todas as vezes e me encarando de frente. Juro que se eu pudesse ler os pensamentos da Priska, nessas horas, eu estaria vendo algo do tipo: "Não sei o que deu na cabeça da minha súdita em me trazer aqui, mas isso não significa que você tem permissão para me apertar e ainda por cima avançar o sinal".


Eu tive que pedir ajuda para examinar e, ao chegar à região perianal (ao redor do ânus), percebi um aumento de volume. Durante a palpação, a pobrezinha soltou o maior grito já registrado na história do atendimento felino. Ela estava com uma saculite.


Ao redor do ânus os felinos possuem duas estruturas chamadas de sacos anais, não visualizadas na pele, mas elas abrigam glândulas sebáceas e apócrinas. Quando o animal defeca, devido à compressão mecânica, essas glândulas secretam substâncias que vão auxiliar na lubrificação. Os felinos também secretam por essas glândulas de forma voluntária para marcar território e quando se sentem ameaçados. São os tão conhecidos “rabujo”.



A secreção dessas substâncias pode estar reduzida levando à impactação do conteúdo (figura 1), gerando dor e tenesmo (dificuldade para defecar). Além disso, pode ocorrer a infecção com formação de abscesso no saco anal, levando ao acúmulo de secreção purulenta (figura 2), intumescimento da região e muita dor.

Figura 1: Esvaziamento do saco anal com presença de material espesso – impactação
Figura 2: Drenagem de abscesso de saco anal.

Geralmente o gato começa a se esconder, proteger, lamber e morder a região da cauda e perianal. O tratamento para impactação envolve sedação e esvaziamento do saco anal com muito cuidado. O tratamento para abscesso envolve sedação, drenagem, limpeza, irrigação da ferida e antibiótico. Ah sim, claro, uso do colar elisabetano.



Ao contrário do que as pessoas acreditam, os sacos anais não devem ser esvaziados no banho e essa prática pode levar à injúria e infecção do local.



E foi assim, um dos atendimentos na Priska, seu abscesso foi drenado e ela foi para casa aborrecida, mas com menos dor com certeza. Hoje a Priska já não está mais entre nós, mas eu prefiro acreditar que lá no fundo, um dia, em algum momento, ela me perdoou e até gostou um pouquinho de mim.


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Imagens - Fonte: NORSWORTHY et al, 2011 (The Feline Patient)



Figura 1

Há três semanas atrás eu estava no paraíso das mulheres, em uma loja fantástica onde só tinha maquiagem, cremes, shampoos, e tudo que precisamos para nosso bem estar físico e principalmente emocional. Foi uma viagem ao Paraguay, e grande parte das minhas amigas perguntou: Alice, comprou o creme da Victoria Secret?

Pois é meninas, vocês sabem do que eu estou falando, do creme básico ou requintado, do corpo, mãos, pés, rosto e até pálpebras. Mas isso me deixou pensando, será que nós, gateiras modernas (e gateiros também) prestamos a mesma atenção na pele nos nossos bichanos?

Venho falar hoje para vocês da doença infecciosa de pele mais comum em gatos, a Dermatofitose.

Essa doença tem grande importância pois é clinicamente muito variável, difícil de se tratar e traz um grande risco zoonótico (antropozoonose: doenças transmitidas de animais para humanos e vice-versa)
A dermatofitose é causada por fungos queratinofílicos, sendo o Microsporum gênero mais comum. Este fungo não faz parte da flora natural da pele do gato, a doença lhe é transmitida pelo contato com outro animal infectado ou no ambiente.

O comportamento de lambedura dificulta o estabelecimento dos esporos e portanto observa-se maior incidência da doença em filhotes recém separados das mãe (principalmente na face) e em gatos de pêlo longo (pela dificuldade maior em se lamber). Da mesma forma o comportamento de lambedura e banhos excessivos podem deixar a pele mais susceptível ao estabelecimento da infecção pela retirada das barreiras naturais e pelo aumento da umidade dos pêlos.


Figura 2


Os fatores de risco são:
• Animais muito jovens ou muito velhos
• Má nutrição
• Presença de ectoparasitas
• Imunossupressão
• Animais que vivem em colônias e a exposição daqueles que frequentam shows.

Os sinais clínicos variam bastante. O prurido (coceira) pode estar ausente ou intenso, diferente do que acontece com cães com essa infecção, pois eles não se coçam. Também pode ocorrer a perda de pêlos que se apresenta nas formas simétrica (figura 1), assimétrica, irregular ou arredondada, com lesões acompanhadas ou não de inflamação, principalmente nos membros e face (figuras 2 e 3). Outras lesões encontradas com menor frequência incluem dermatite esfoliativa, seborréia, acne no queixo e nódulos.

Uma vez observadas essas lesões, o gato deve ser levado ao veterinário que vai lançar mão de uma série de exames para o diagnóstico como: exame direto de fungo, cultura fúngica e até biópsia de pele. Atualmente várias clínicas no Brasil, até as menores, estão equipadas com um microscópio e o kit de meio de cultura. O resultado do exame direto fica pronto no mesmo dia, já o da cultura demora cerca de 45 dias, entretanto são necessários para o uso da terapia mais correta.

Uma vez estabelecido o diagnóstico, inicia-se o tratamento, e este pode incluir:
• Tosa do animal para minimizar o risco de contágio, principalmente em animais com lesões extensas;
• Antifúngico oral (exceto para gatas gestantes)
• Terapia tópica como shampoos e/ou loções com ação antifúngica
• Vacina contra Dermatofitose (uso recomendado apenas como terapia adjuvante)

Figura 3

Geralmente o tratamento é realizado de 6 a 8 semanas, podendo se estender por mais tempo.

Após esse período o gato deve ser monitorado sempre, em todas as consultas de rotina, em busca de lesões. A terapia no ambiente deve ser agresiva, de preferência jogando fora todos os brinquedos, caminhas, toalhas, arranhadores. Todas as superfícies da casa devem ser limpas com aspirador.

Ah, não se esqueçam, essa doença pode ser transmitida para outros animais e para os humanos também, portanto, deve-se ter muito cuidado no manejo. A primeira vez que eu peguei um caso de dermatofitose foi interessante, a proprietária apresentava uma lesão arredondada na bochecha e eu perguntei:
- A gatinha dorme com a senhora?
- Sim, como você sabe?
- Por causa da lesão na sua bochecha.
- Não, Alice, isso é alergia, já to tratando com uma pomada.
- E melhorou?
- Eh... não.
- Então usa a pomada da gatinha.

Enfim, ambas ficaram boas.

Até breve, pessoal!

 Alice Ribeiro
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Referência e fonte das imagens: GUAGUÈRE, E. PRÉLAUD, P. A practical guide to Feline Dermatology, 1999.



Briga de gatos

A agressão de causa territorialista é muito comum entre gatos que têm uma vida semi-domiciliar e aqueles que vivem em casas com muitos gatos. Eu mesma tenho que “rebolar” para fazer do meu lar habitável para mim e meus quatro gatos.

foto: giane portal / fofurasfelinas

Moro em um apartamento de dois quartos, sala, cozinha e varanda, e cada cômodo desses é um território diferente para eles. Eles são o Panda, a Sushi, a Maria Gadú e a AK47.

Todos os meus gatos são castrados, então o macho não costuma bater nas meninas por causa do território. Ele briga com os gatos dos vizinhos que rondam o prédio. O Panda e a Sushi não costumam brigar entre si, pois eles são irmãos e foram adotados juntos quando filhotes. Às vezes o Panda e a Gadú se pegam, a gente acha que estão brincando mas eles rolam pelo chão, se mordem.

Quando o gato tem uma interação amigável com outro eles dormem juntos, se lambem, se esfregam, o que é bem longe do que o que eu vejo aqui em casa. A Sushi geralmente não acorda nem para brigar então ela se dá bem com todos. Mas o meu maior problema é a AK47. Ela é extremamente medrosa, sempre fica no alto, longe dos outros, afastada. Quando ela desce para o quintal, ela sai do meu quarto e atravessa a casa correndo. Na volta é do mesmo jeito. Ela não tem outro território na casa que não o meu quarto. Para deixar tudo organizado para que ela fique à vontade, eu coloquei uma caixa de areia, comedouro e bebedouro no meu quarto e, apesar de ser visitado pelos outros gatos, ela não parece se importar muito. Passa o dia inteiro na minha cama, se eu deixo uma gaveta aberta ela tira tudo de dentro, se eu deixo a sapateira aberta ela coloca todos os meus chinelos em cima da cama para brincar e até deixa a minha cadela deitar na cama com ela, mas com uma certa distância.


Infelizmente, nem toda dinâmica entre gatos consegue ser bem controlada, mas vivendo no limite, como é aqui em casa e, por vezes, nós recebemos gatos vítimas de agressões.

A mordida do gato apresenta uma característica inerente à espécie, que gera problemas sérios. Pelo fato de serem dentes finos, eles agem como agulhas, fazendo uma ferida pequena mas profunda. A pele tende a cicatrizar rapidamente, fechando a ferida e deixando as bactérias implantadas lá no fundo terem um ambiente ótimo para crescimento, com alimento, boa temperatura e umidade. Quando a mordida se dá em regiões aonde a pele é mais solta, como pescoço, dorso, abdômen, cabeça, pode desenvolver um abcesso, observando um inchaço e, se não for cirurgicamente puncionado e drenado, ele vai formar uma fístula e drenar, e aí sim chega o proprietário em completo desespero às vias de um AVC no consultório.





Quando a mordida se dá em regiões onde a pele é mais aderida à musculatura, como na extremidade dos membros, pode não se desenvolver um abscesso, e sim uma celulite, que é uma inflamação séria da células adiposas.


Os tratamentos incluem remoção do abscesso e uso de antibióticos.

Os locais mais frequentemente atingidos estão descritos na figura abaixo:





Quando você tiver problemas de agressões entre gatos em casa, os leve ao veterinário. Este vai descartar qualquer doença que possa estar levando à mudança de comportamento. Sendo descartada uma doença primária, então deve-se contar toda a dinâmica dentro de casa, o que acontece antes de cada briga, qual é a reação do proprietário e outros membros da casa, como é a disposição de caixas de areia, ração e água para os animais, se são castrados, se estão no cio, etc. Apenas simples mudanças no manejo podem ajudar os animais a minimizar esses encontros agressivos entre eles, por exemplo:

- Distribuição dos recursos de água, comida e banheiro nos territórios estabelecidos.

- Não forçar um encontro entre os gatos de qualquer jeito. Esse encontro deve ser tranquilo, supervisionado, deixando-os a uma certa distância segura, podem ser utilizados ferormônios sintéticos (Feliway), podem ser utilizados petiscos para congratular cada interação positiva.


- Colocar uma coleira com um sino no gato agressivo, assim a vítima terá tempo de se esconder ou fugir antes da briga (esse artifício pode funcionar apenas temporariamente).


- Dê atenção a todos os gatos, eles precisam disso. Todos os gatos precisam de diversão, oportunidade de caça ou exploração do ambiente, quando o gato é privado dessas coisas ele fica frustrado.


Se você tem o profundo desejo de ter uma casa cheia de gatos, adote fêmeas parentes ou filhotes em pares para prevenir brigas futuras. Infelizmente, a doação de um dos gatos pode ser necessária, mas vários artifícios podem ser utilizados antes da adoção de uma medida drástica.

É isso aí gente, existem muitas formas de prevenir e remediar interações agressivas, converse com o seu veterinário.




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Fonte: O Paciente Felino. 4ª Edição




foto: giane portal / fofurasfelinas
Apesar da ascensão da medicina veterinária felina, pouco se fala sobre odontologia. Na realidade os veterinários se sentem, e são, pouco preparados para lidar com a odontologia felina. Na minha experiência eu tive uma das melhores aulas, o gato da minha sócia.


Era de manhã e eu estava de plantão, mais um dia tranquilo e sem movimento, muito tempo para estudar, mais usado para jogar campo minado, quando chega minha sócia e seu gato de 10 anos:


- Alice, o Deli está sem comer, ele vai ao comedouro e volta. Ele tem fome, mas não come nada há dois dias. Eu acho que é reabsorção odontoclástica.

- Que?

- O Deli está sem...

- Não, não, não... reabsorção o quê?

- Odontoclástica.

- O que é isso? Como trata?

- Ah, ocorre absorção do.. da... bom, vamos ler sobre o assunto e a gente vê, porque eu também nunca peguei um caso desses não.

E lá fomos nós: Na odontologia, a reabsorção dentária é a doença mais diagnosticada em felinos e está relacionada com lesões odontoclásticas.

Bom, até aí tudo bem, mas como saber que é mesmo essa doença?

A reabsorção dentária ocorre em 30% dos gatos, as causas exatas e curso da doença são ainda desconhecidos e é difícil relacionar fatores pré-disponentes como idade, raça, sexo, dieta ou outras doenças. Os proprietários podem não se dar conta da doença até observarem os sintomas como halitose (mau hálito), o gato pode ficar passando a pata na face, salivação excessiva, letargia, disfagia (dificuldade para se alimentar) e até perda de peso. Ao exame físico são observadas lesões na superfície bucal do dente ou logo abaixo da margem gengival (figura 1), porém, toda a coroa do dente deve ser avaliada em busca das lesões. Somente a gengiva pode estar avermelhada (hiperêmica) e inflamada no início da doença.

Fonte: NORSWORTHY, 2011

- Vamos examinar então, traga o gato. Abre a boca, ele fecha, abre de novo, ele morde.

- Mas ele é tão mansinho, não estou entendendo, Alice.

- Mas é claro, se ele não consegue comer há dois dias, um gato desses que está bem acima do peso e adora comer, só pode estar sentindo muita dor.

- É verdade, Alice, deve ser dor, vamos sedar, e, só para constar, ele não é gordo, é peludo.


Então depois da sedação e um exame profundo, nós conseguimos observar dois dentes afetados, e a gengiva bastante inflamada.

Quando há disponibilidade na região, o que não era o caso na época, uma radiografia cuidadosa deve ser feita com confirmação do diagnóstico.

A seta mostra a reabsorção dentária na raiz do dente.
Fonte: NORSWORTHY, 2011

Para o tratamento é necessário avaliar o status da lesão, isto é, o quão avançada ela está. Geralmente é necessária a extração do dente, com posterior cuidado pós-cirúrgico como uso de antibiótico e anti-inflamatório. O gato deve ser reavaliado posteriormente a cada 3 – 12 meses. A profilaxia com dieta apropriada, escovação dentária, uso de soluções orais e gel nos dentes remanescentes é necessária.


Os proprietários devem ser avisados que, como a causa é desconhecida, as lesões podem ocorrer em outros dentes, bem como que a profilaxia deve ser para o resto da vida.


No caso do Deli, nós fizemos a extração dos dentes e depois de dois anos outro dente precisou ser extraído.

Pois é pessoal, observem sempre a boca dos seus gatinhos e estejam alertas para quaisquer sintomas. A falta de apetite não deve ser confundida com a dificuldade em se alimentar, o gatinho vai sempre procurar a comida, e relutando quando chega ao comedouro.


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